30 de outubro de 2011

ENTREVISTA COM RONALDO BAPTISTA



**Esclarecimento: Esta entrevista foi realizada pelo jornal Diário da Manhã, de Porto Alegre / RS, no dia 16/09/2011, caderno Blitz Cultura.

RONALDO BAPTISTA 

A voz da publicidade brasileira.
Grande dose de talento e belíssimo timbre de voz, fizeram do paulista Ronaldo Baptista durante muitos anos o locutor mais solicitado pelas agências de publicidade para a gravação de peças comerciais, tanto para o rádio, quanto para a televisão. Afinal, para qualquer empresa que se preze, ter seu produto valorizado pelo brilho e talento desse ator, locutor e jornalista nascido a 18 de setembro de 1933 (ele completa 78 anos neste domingo), já era por si só, um grande empurrão na hora de colocar no mercado um novo artigo, ou mesmo, valorizar uma marca já consagrada com uma boa chamada institucional.

A voz de Ronaldo Baptista foi uma das poucas que tiveram o privilégio de participarem das primeiras peças publicitárias por ocasião do lançamento do ”Volkswagen” – Nome oficial do carro hoje conhecido como “Fusca”. Atualmente o locutor, que não obstante a fama é uma pessoa acessível, atenciosa e de grande modéstia; detém simplesmente, segundo o “Clube da Voz”, entidade que congrega as melhores e mais caras vozes do Brasil no mundo da propaganda, o título de locutor comercial brasileiro mais importante de todos os tempos.

A justificativa: “Ainda que não exista uma estatística oficial a respeito, tem-se como ponto pacífico no meio da publicidade que no Brasil, nenhum profissional do metier, até hoje, sequer chegou perto da quantidade de comerciais gravados por Ronaldo tanto para o rádio quanto para a televisão, ao longo de suas mais de cinco décadas de atuação no mundo da locução publicitária”.

As facetas de Ronaldo Baptista não param por aí: dublagem, narração de “historinhas infantis”, participação como ator em discos humorísticos, aparições em programas televisivos, entre outros babados, também integram seu mundinho particular...

Confira um bate papo com essa simpática figura!

Blitz – Ronaldo, quando você começou sua carreira de locutor?



Ronaldo Baptista (RB) - Comecei no rádio em São Paulo, em 13 de julho de 1951,  aos 17 anos de idade, a partir de um pequeno contrato assinado junto à Rádio América,  com a anuência de meus pais. (Na ocasião, ainda faltavam dois meses para que eu completasse a maioridade). Nessa época, acabara de encerrar meus estudos que tiveram duração de um ano na Universidade Artística de Rádio (UAR), que era uma instituição criada por Normet Pinheiro e sua esposa, Ruth Sauaya. Semanalmente esse casal promovia um “Teatro Experimental”, com duração de meia-hora, e que era levado ao ar na rádio Cultura. A interpretação artística era justamente dos alunos daquela escola (UAR). Entre as personalidades que mais tarde lograriam grande fama e que frequentaram a Universidade Artística do Rádio, da para citar: Cláudio Marzo, Francisco Cuoco, Murilo de Amorim Correa, entre outros. Logo iniciei minha carreira. Posteriormente, tive ainda passagens por outras emissoras como as Rádios Cultura, Bandeirantes (por vinte e um anos), Record (por dez anos), e Capital (por vinte anos),  na qual apresentei diversos programas e fui voz-padrão. Fiz também durante cerca de 20 anos muitas peças de rádio-teatro, sendo que dentre as centenas de obras que representei, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronté, talvez tenha sido a que maior audiência obteve. Era o programa mais ouvido em São Paulo no horário das 22h., numa época em que a televisão ainda tinha uma presença muito tímida nos lares brasileiros.

**Tenente Rip Masters**


Blitz – E a parte da dublagem como entrou em sua vida?


RB - Em certa oportunidade, recebi um telefonema de Glauco Laurelli, para participar das dublagens de “As Aventuras de Rin-Tin-Tin”, pela Gravasom (empresa fundada em 1958), onde dublei o tenente Rip Masters nas sete temporadas da série. Também tive a felicidade de indicar o jovem Zezinho Cútolo, que eu já conhecia da Rádio Bandeirantes. Zezinho dublou maravilhosamente o Cabo Rusty. Naquela época recebíamos 1 cruzeiro para cada anel, take ou tomada dublada. Com a prática adquirida dava pra dublar uns 30 anéis por hora. Como sempre atuava como protagonista, ou seja, o que “mais falava”, dava pra tirar um dinheirinho bom no final do mês. O “extra”, ganho como dublador, permitiu-me significativa melhoria nas finanças pessoais. Ainda na Gravasom dublei a série “Quinta Dimensão” e algumas aberturas do seriado “Além da Imaginação”, que até poucos anos atrás ainda podia ser assistido no canal por assinatura USA (atual Universal Channell). Depois, Mário Audrá, que investiu pesadamente em novos equipamentos, uma vez que a demanda pelas dublagens aumentava cada vez mais. Nascia ali a AIC. Desta forma as dublagens de Rin-Tin-Tim, que começaram na Gravasom, terminaram na AIC. Em seguida veio “Viagem ao Fundo do Mar”, e com ele, o personagem do Almirante Nelson, vivido pelo ator Richard Basehart, o qual dublei, nos 110 episódios das quatro temporadas. Foi nessa época, em 1967 que recebi o prêmio “Governador do Estado de São Paulo”, como melhor radioator do ano. Fui o dublador oficial do ator Tyrone Power em grande parte dos seus filmes. Cheguei também a fazer televisão, na época da fundação da TV Bandeirantes, quando fui contratado por 500 cruzeiros para participar de um programa humorístico chamado “Cidade de Araque”. Esse programa reunia vários esquetes cômicos e poderia ser comparado com o atual “A Praça é Nossa”. Depois fiz um programa chamado “Sequência das Oito”, onde interpretei em seis episódios o detetive Sherlock Holmes. Apareci também em vários programas e comerciais, como policial. Adoravam me escalar para interpretar tal personagem, pela minha voz e tipo físico. Voltando ao assunto da dublagem: dentro do universo infantil, bem mais tarde, fiz ainda algumas narrações para a “Turma da Mônica”, a pedido da produção do Maurício de Souza. Durante muito tempo, também, fiz narrações para a Disney em chamadas promocionais e dublagens de filmes, como seu locutor oficial em língua portuguesa.

**Almirante Nelson**
 
Blitz - Nos anos 60 você teve um programa de grande sucesso na rádio Bandeirantes de São Paulo, o “Patrulha Bandeirantes”. Como era esse programa?


RB – Era um programa muito interessante, onde teatralizávamos acontecimentos policiais. Era como uma espécie de rádio-novela, só que da vida real. Fatos verídicos vivenciados no universo policial eram recolhidos e dramatizados nesse espaço. A reportagem musical desse programa era de Celso Teixeira.



Blitz – E o programa “Bom à Beça”?



RB – Era um programa musical de variedades. Nele recebi artistas dos mais variados perfis, desde Orlando Silva, até o Trio Esperança. Foi num dos programas desta série, que Roberto Carlos divulgou em primeira mão seu primeiro disco, “Louco Por Você”.



Blitz - Segundo os anais da publicidade, você é considerado  muito provavelmente como o locutor que mais peças publicitárias gravou para o rádio e a televisão no Brasil até hoje.


RB – É bem possível que sim. Só posso dizer sobre isso que é muito gratificante ter contribuído um pouquinho no que se fez em termos de locução publicitária nesses anos todos no nosso país. Fico muito feliz com tudo o que aconteceu, e em 2001, ao completar com muita alegria meu jubileu de ouro profissional, recebi uma linda e inesquecível homenagem, através de uma festa com doze horas de duração, transmitida  ao vivo pela rádio Capital de São Paulo.


**A  1ª voz do Paladino do Oeste**




Blitz – Descreva o roteiro de alguns comerciais marcantes que você tenha gravado no decorrer de sua carreira profissional como locutor comercial.



RB - Foram tantos.. fica muito difícil lembrar... Mas assim de cabeça, eu citaria um dos primeiros comerciais da Volkswagen, em meados dos anos 60. Nesse comercial o Fusca aparecia com o letreiro de “auto-escola” estampado nas portas laterais. Eu dava “dicas” como se fosse um instrutor para a então muito jovem atriz Regina Duarte, que, toda atrapalhada tentava com bastante dificuldade por em movimento o sedan, dando uma “surra” no carrinho, pondo sob prova total a resistência do automóvel. No final, entrava outro colega locutor (infelizmente me falta no momento o nome dele), que “assinava” o comercial, reforçando que o veículo era feito para durar, e que suportava as piores situações sem enguiçar..(como ser guiado por uma aprendiz de motorista como a Regina). Essa ideia era passada na seguinte frase: Você já imaginou, se não fosse um Volkswagen??? (risos..) Tem outro, esse dos anos 80 e que ficou durante muitos anos no ar. O dos coelhinhos da Duracell, onde o coelhinho carregado com pilha comum era contrastado com um carregado com a Duracell, ambos caminhando e tocando tambor. O coelhinho da pilha comum logo perdia as forças e para va, enquanto isso o da pilha Duracell prosseguia empertigado e com energia (risos).

Blitz – A partir dos anos 60 você apareceu em vários discos, em especial humorísticos e infantis. Como foi essa experiência?

RB – Foi inesquecível. Fiz participação em dois discos cômicos de Vitório e Marieta, um casal italiano muito engraçado e de grande sucesso na época, tanto no rádio quanto na televisão. Era vivido pelos atores Murilo de Amorim Correa (comendador Vitório) e Maria Tereza (Marieta). O nome dos LP´s: “Show Riso” e “A Volta ao Mundo em um Só Riso”, ambos pela Odeon.  Bem no finalzinho dos anos 60, comecei a narrar historinhas infantis para a “Abril Cultural”. A série, conhecida como “Historinhas de Walt Disney”, era um suplemento composto por um livrinho ilustrado que contava uma determinada historinha ou conto infantil, e encartado neste vinha um disquinho de 7” (compacto simples), gravado nos estúdios da gravadora RGE para a RCA Victor,  onde cada historinha vinha dramatizada por excelente cast artístico formado por feras da dublagem nacional. Figuras que vocês conhecem bem ainda nos dias de hoje como a Helena Samara (dubladora da ”Dona Clotilde” – a “Bruxa do 71” do seriado Chaves), Rita Cleós, (dubladora de “Samantha Stephens”, no seriado A Feiticeira),  Borges de Barros (dublador do “Moe” dos Três Patetas, também do “Dr Smith” de Perdidos No Espaço) – todos infelizmente já falecidos – estavam entre os muitos artistas que formaram o elenco para este projeto.  Minha parte nessa produção consistia na narração das historinhas. A trilha sonora era toda original dos filmes dos estúdios Disney. O convite para ser o narrador oficial desta enorme coleção, que totalizou 68 fascículos diferentes, ocorreu após eu ter participado de alguns testes, e partiu da escritora gaúcha de literatura infantil  Edy Lima, que era também a responsável por adaptar os textos.

Para as gravações, eu buscava inspiração imaginando estar rodeado por crianças sentadas no chão, olhando para mim como a um pai paciente e cativante a lhes contar aquelas lindas historinhas.



Blitz – Lembra de alguns títulos lançados nessa coleção?


RB – Como já falei, foram dezenas de volumes. Essa série, posteriormente seria relançada em diversas ocasiões de modo periódico ao longo dos anos, com capas diferentes, mas com o mesmo conteúdo. Alguns deles: Bambi, Se Minha Cama Voasse, Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo, Dumbo, O Alfaiate Valente (estrelado pelo rato “Mickey”, Ursinho Puff (hoje o chamam de “ursinho Pooh”), O Natal do Tio Patinhas, Pinóquio, Peter Pan, Mogli, Cinderela, O Carro Que Falava, O Gafanhoto e as Formigas, João e Maria, Branca de Neve, Donald e a Bruxa, 101 Dalmatas, entre muitos outros. Até hoje recebo muito carinho das crianças de todas as idades que relatam quanta alegria essas historinhas proporcionaram à infância delas. Somente essas palavras de carinho e gratidão, já bastariam para que eu me sentisse um ser humano melhor, e percebesse que todo esse trabalho não foi em vão. E essa sensação de “trabalho cumprido” não tem preço! Sinto-me totalmente feliz e realizado!!



Blitz – O que você tem feito atualmente?

RB – Saí da Rádio Capital em 2005, após 21 anos de trabalhos dedicados àquela casa. Cheguei a ser sondado para atuar como voz-padrão da Rádio Record em 2008, mas infelizmente não houve acordo. Entretanto, de qualquer forma, senti-me feliz com a lembrança do meu nome. Ainda tenho trabalhado bastante, graças a Deus, mas ultimamente tenho reservado um tempinho todo especial para as artes plásticas (sempre adorei pintar), e é claro,  para curtir minha família, que eu amo muito.

 

**Ronaldo Baptista faleceu no dia 16 de janeiro de 2012, vítima de um ataque cardíaco, aos 78 anos de idade.


**Um episódio da série "Viagem ao Fundo do Mar", no qual Ronaldo Baptista deixou sua eterna dublagem do Almirante Nelson**



**Marco Antônio dos Santos**