30 de abril de 2017

DUBLAGEM INESQUECÍVEL (30): MISSÃO IMPOSSÍVEL




Na década de 1960, as séries de espionagem se apoiavam em herois ao estilo de James Bond, sendo que alguns contavam com um ou no máximo dois assistentes para o cumprimento de cada missão. "Missão Impossível" reformulou esse conceito ao introduzir uma equipe de espiões a serviço de um governo que negaria qualquer relacionamento caso fossem descobertos.

O projeto foi idealizado por Bruce Geller e tinha "Brigg's Squad" como título inicial. David Briggs (um especialista em psicologia) era o líder da equipe, recebendo suas ordens em mensagens pré-gravadas. Os demais membros eram Albert Ney (especialista em comércio), Jack Smith (um playboy), Barney Collier (formado em engenharia química, matemática e microssistemas), Willy Armitage (um halterofilista), Terry Targo (assassino profissional) e Martin Land (capaz de falar 15 idiomas, era mágico, ladrão e mestre nos disfarces). 
No desenvolver do projeto, Albert Ney e Jack Smith foram substituídos por Cinnamon Carter - uma espiã sedutora. E Martin Land acabou tendo seu nome trocado para Rollin Hand.

Amigo de Martin Landau, Geller o convidou para interpretar Rollin Hand. Na ocasião, os atores eram contratados por um período de 5 anos e isso desagradava ao ator, que não queria ficar tanto tempo preso à uma série de TV. Para contornar tal situação, Geller propôs renovar seu contrato anualmente.

Barbara Bain - modelo e esposa de Landau na época - foi escolhida para interpretar Cinnamon Carter. Greg Morris - também conhecido de Geller - foi escalado para o papel de Barney Collier. Peter Lupus - que na ocasião utilizava o nome artístico de Rocky Stevens - foi o escolhido para dar vida à Willy Armitage. E o comediante Wally Cox se tornou o assassino Terry Targo, personagem este que desapareceria ainda no desenrolar da primeira fase do programa.


*Steven Hill, Barbara Bain, Peter Lupus e Greg Morris*


Para chefiar o grupo, Geller escolheu Steven Hill, ator de teatro que daria ao personagem a intelectualidade necessária para elaborar a linha de ação da equipe. A CBS - para quem a Desilu ofereceu o episódio piloto - se opôs a contratação de Hill, alegando desejar ter alguém mais conhecido e com melhor aparência para viver o agora denominado Daniel Briggs. Geller, no entanto, insistiu em manter o ator que, por ser judeu praticante estipulou em contrato não poder trabalhar no final das tardes de sexta-feira e nos finais de semana ou feriados. Geller concordou com tal exigência, sem imaginar o transtorno que isso traria aos cronogramas de gravação dos episódios.


Com elenco definido e já rebatizada para "Missão Impossível" a produção do episódio piloto teve início ainda em 1965. Por se tratar de uma trama complexa e difícil de desenvolver, o orçamento não tardou em estourar. Os atrasos subsequentes fizeram com que a CBS optasse por um outro projeto denominado "Nighwatch" - de Robert Altman - que já estava com seu piloto concluído. Geller entregou depois o de "Missão Impossível", mas a CBS se manteve firme na decisão de ficar com “Nightwatch”. Na ocasião, Lucille Ball - proprietária da Desilu - organizou uma coletiva de imprensa e declarou estar cogitando se aposentar. Na época, a atriz estrelava “Lucy Show", líder de audiência da CBS. Ao tomar conhecimento do pronunciamento de Lucy, a CBS engavetou “Nightwatch” e comprou “Missão Impossível”.


*Steven Hill*

Bruce Geller não via com bons olhos transformar "Missão Impossível" numa série semanal, já que considerava o programa extremamente complexo, caro e sobretudo imoral. Quando soube da decisão da CBS, simplesmente entrou em pânico só de pensar em ter de oferecer um episódio por semana mantendo o mesmo nível do que fora apresentado no piloto. O pior: nada havia sido desenvolvido para novos episódios e a partir daí iniciou-se uma corrida contra o tempo. Foi quando dois roteiristas - William Read Woodfield e Allan Balter - propuseram uma mudança na trama. Ao invés da equipe de espiões roubar o inimigo, ele seria induzido a entregar o produto do roubo (ou o que estivesse em jogo) e se entregar (ou se expor).

A série estreou em 17 de Setembro de 1966 com audiência mediana. O bastidores de produção viviam um completo caos: orçamentos estourando e seguidos atrasos na entrega dos episódios. Uma das causas no atraso de entrega dos episódios era o ator Steven Hill e sua exigência de dispensa em determinados dias e horários. Por conta disso, ao final da primeira fase do programa, Geller se convenceu de que o ator precisava ser substituído.



*Peter Graves*

Peter Graves foi a escolha que agradou a emissora tendo em vista sua aparência marcante,  conhecida desde a série de TV "Fury". Com boa aceitação, inclusive entre os colegas de elenco, o ator no entanto fez uma única exigência: ninguém do elenco poderia ganhar mais do que ele.

Para baratear custos na segunda temporada (1967/1968), Geller providenciou que as cenas de ação fossem filmadas só nos finais de semana por dublês e figurantes não sindicalizados, o que evitaria o pagamento de horas extras. Algum tempo depois, Lucille Ball decidiu vender a Desilu para a Paramount. Com o objetivo de produzir séries a baixo custo, vendê-las a um alto preço e reverter o lucro para a produção de filmes, os novos proprietários passaram a exercer pressão sobre Bruce Geller, com o intuito de baixar o orçamento da série. Como consequência, a complexidade das tramas teriam de ser reduzidas. Alguns funcionários oriundos da Desilu discordaram dessa nova política e pediram demissão. Um deles, Herbert Solow, foi substituído por Douglas Cramer, que assumiu tendo como principal compromisso reduzir os custos de "Missão Impossível" e "Jornada nas Estrelas".



Em meio ao tiroteiro travado entre Geller e Cramer a CBS interviu a favor do primeiro, visto que a terceira temporada (1968/1969), estava entre as mais populares do período.

A série, no entanto, sofreu um revés quando o ator Martin Landau começou a renegociar seu contrato anual, com vistas a estrelar a quarta fase do programa (1969/1970). O estúdio ofereceu ao ator o mesmo salário que era pago à Peter Graves - 7 mil dólares por episódio - mas Landau pediu 11 mil dólares, o que forçaria a Paramount a pagar o mesmo salário para Graves, por força de exigência contida em seu contrato. A CBS interveio, se oferecendo a pagar a diferença salarial de Landau. Mas o estúdio recusou a oferta, até porque isso não resolveria o impasse que seria criado com Graves.

A Paramount propôs então que Martin Landau ficasse pelo mesmo salário, mas com participação em apenas alguns episódios. A idéia era procurar por um ator que pudesse substituí-lo nos episódios onde não atuasse. Geller sondou Robert Vaughn (O Agente da UNCLE), Ross Martin (James West) e Leonard Nimoy (Jornada nas Estrelas). Dos três, optou por este último, que assumiria o papel de Paris, um mágico especialista em disfarces.


As negociações com Martin Landau não avançaram e por conta disso ele optou por sair em definitivo do programa. Como consequência, sua então esposa, Barbara Bain, não foi chamada para estrelar a quarta temporada do programa, sendo substituída por Lee Meriwether ao longo da quarta temporada, em episódios cujos roteiros exigiam uma presença feminina na equipe. A CBS acusou Douglas Cramer de manipular a saída de Martin Landau e Barbara Bain com o intuito de baixar o orçamento. Este, por sua vez, alegou que Peter Graves e Greg Morris eram muito mais importantes para a produção que o casal de atores. Como resultado, o canal proibiu a entrada de Cramer em suas dependências por quase três anos.


A partir daí, a série passou a perder adeptos. Sendo criticada por apoiar a política do governo na interferência de assuntos externos, as tramas passaram a focar questões domésticas. Se por um lado os custos com a produção haviam baixado, por outro uma sucessão de erros comprometiam cada vez mais a audiência. Novos roteiristas chegaram a eliminar a tradicional cena do gravador. Constatado o erro, retornaram tal como era a introdução.


 Uma jovem Lesley Ann Warren fora contratada para seduzir o público jovem na quinta temporada (1970/1971). Sua atuação na série foi considerada por muitos como precária e digna de esquecimento. Sam Elliott também fora contratado na ocasião para viver o Dr. Doug Robert, personagem este que praticamente eliminou o de Peter Lupus (Willy Armitage). Elliott, no entanto, foi afastado algum tempo depois, quando pediu aumento salarial. Geller insistiu em trazer Lupus de volta, mas seu retorno só se deu em função da audiência, que não aceitava sua saída.

Em 1971 Bruce Geller foi demitido e com sua saída Leonard Nimoy também deixou o elenco. Restou para a Paramount informar à CBS que estaria cancelando a produção. A CBS não aceitou a decisão e anunciou a sexta temporada (1971/1972). O elenco foi então reformulado. Ninguém entrou no lugar de Nimoy e as situações dramáticas passaram a ser sustentadas por Peter Graves. No lugar de Lesley entrou Linda Day George (quando esta ficou grávida, Barbara Anderson a substituiu).


**GREG MORRIS, PETER GRAVES E LINDA DAY GEORGE**


*A atriz Barbara Anderson na 7ª temporada*

A série acabou chegando ao fim quando após a sétima temporada
(1972/1973) Greg Morris anunciou que não renovaria seu contrato. Junto com Peter Graves, Morris era considerado o rosto que identificava “Missão Impossível”. Visto que a sétima temporada registrara a mais baixa audiência de toda a série, a Paramount optou por cancelar a produção. Desta vez a CBS não se opôs.

Em 1978, a Paramount propôs produzir um telefilme de “Missão Impossível”. Na trama, Jim Phelps sai da prisão onde cumpriu seis anos por conspiração e recusa a depor diante do Congresso. Ele é abordado por um agente que lhe propõe uma última missão: prender Rollin Hand e Cinnamon Carter, que se tornaram ladrões internacionais. Barney seria novamente recrutado, mas Willy, agora dono de uma academia, se recusaria a voltar. O roteiro foi rejeitado pela CBS. Oferecido à NBC, o canal encomendou um novo roteiro. Neste, Phelps e Barney são donos de uma Academia onde treinam novos agentes especiais. Abordados para uma nova missão, eles recrutam a ajuda de Willy, Cinnamon e Rollin. O texto seria uma compilação de três episódios da série original, mas foi rejeitado pelo estúdio.

Ainda em 1978, Bruce Geller veio a falecer quando o avião no qual viajava em busca de locações caiu no Buena Vista Grand Canyon.

Em 1984, o produtor Ed Feldman propôs levar “Missão Impossível” para o cinema. O projeto chegou a ser anunciado mas acabou engavetado. Em 1988, uma nova tentativa, desta vez com roteiro de Stirling Silliphant ("Cidade Nua"). Mas uma greve de roteiristas fez com que o estúdio descartasse a idéia.

Entre 1988 e 1990, a Paramount produziu para a TV uma nova versão de “Missão Impossível” em duas curtas temporadas. O estúdio adaptou roteiros da série original, produzindo também novos episódios. A produção foi filmada na Austrália e contabilizou 32 episódios. Foi cancelada pela ABC em função da baixa audiência. No elenco, o retorno de Peter Graves como Jim Phelps, Phil Morris (filho de Greg Morris, que também chegou a atuar em dois episódios), Terry Markwell (até o episodio 12), Jane Badler (a partir do episódio 13), Thaao Penghlis e Anthony Hamilton.


**Produção 1988/90**



**A SÉRIE NO BRASIL**

"Missão Impossível" estreou no Brasil em 1967 pela extinta TV Excelsior Canal 9 de SP. A série foi lançada no dia 12 de Junho daquele ano, uma segunda-feira, às 22h, tendo sido anunciada na ocasião como "Líder de Audiência na Rede CBS dos Estados Unidos". A emissora exibiu com grande sucesso as 3 primeiras temporadas do programa (em 1968 a segunda temporada chegou a ser a série de maior audiência da TV brasileira). 

Em Setembro de 1970 a exibição dos episódios da quarta temporada foi interrompida com a cassação da emissora. Tais episódios foram resgatados depois - em 1971/1972 - pela TV Record Canal 7 de SP. A emissora completou a exibição do lote, exibindo nas terças-feiras, as 22h, os ainda inéditos e reapresentando também aqueles que a Excelsior já havia exibido.

Em 1976, já com o advento da TV a cores no Brasil, a TV Bandeirantes voltou a exibir a série. Apesar de ter sido produzida a cores na íntegra, a emissora optou por reexibir a série a partir da segunda temporada, onde os episódios já tinham o ator Peter Graves como Jim Phelps, o chefe da equipe. Exibida até seu final, ficou na grade de programação da emissora até 1983.

"Missão Impossível" só voltou a ser exibida entre nós no ano de 2004, desta feita na TV a Cabo, através do extinto Canal Retro Channel que, gerado a partir da Argentina, era uma das opções de entretenimento da DirecTV. Na ocasião, a emissora exibiu os episódios da terceira, quarta, quinta e metade da sexta temporada. Todos com som original e legendas em português.

Em assim sendo, a primeira fase - estrelada por Steven Hill - só foi mesmo exibida pela TV Excelsior.

**A DUBLAGEM DE MISSÃO IMPOSSÍVEL**

Todas as temporadas da série já foram lançadas em DVD no Brasil, sendo que apenas a primeira saiu com a dublagem original da AIC. Segundo fontes oficiais, a dublagem das demais temporadas estaria perdida.

Questionada a respeito, a Paramount informou que teria ocorrido:

1 - Da dublagem da segunda temporada, feita pela AIC SP, apenas 18 episódios ainda possuem  áudio em português, mas o mesmo está em mau estado de conservação e não há interesse na recuperação em função de custo.

2 - Da dublagem da terceira temporada, feita pela AIC SP, apenas 13 episódios ainda possuem áudio em português, mas o mesmo está em mau estado de conservação e não há interesse na recuperação em função de custo.

3 - Da dublagem da quarta temporada, feita pela TV Cinesom/RJ, apenas 2 episódios ainda possuem áudio em português mas o mesmo está em mau estado de conservação e nem há como ser recuperado.

4 - Da dublagem da quinta, sexta e sétima temporada, feita pela Álamo SP, apenas 6 episódios ainda possuem áudio em português, mas o mesmo está em mau estado de conservação e nem há como ser recuperado.


**Como sobreviveu a dublagem da 1ª temporada realizada pela AIC ?


 A Desilu operava com diversas pequenas operadoras fora de seu país sede e por esse motivo o primeiro ano de "Missão Impossível" não teria sido distribuído entre nós pela Brascontinental no ano de 1967 e sim por uma pequena empresa chamada Saturno (a Brascontinental teria feito então a distribuição das temporadas seguintes, que conseguiram grande sucesso devido a presença do ator Peter Graves).

Em não conseguindo viabilizar a reprise da primeira fase do programa em função da mesma ser estrelada pelo ator Steven Hill, tal temporada teria sido relegada ao esquecimento e foi justamente por esse motivo que sua dublagem acabou sendo preservada pela Saturno, o que não ocorreu com as demais, distribuídas pela Brascontinental, que foram exibidas, respectivamente, pelas TVs Excelsior, Record e Bandeirantes.

A Saturno diversificou suas atividades, mas como detentora dos direitos do áudio em português, franqueou para a Paramount toda dublagem da primeira temporada para que a mesma pudesse ser lançada, exclusivamente em DVD, para o Brasil e toda América Latina (a Saturno detém também os direitos do áudio em espanhol).

Em assim sendo, a Paramount americana detém os direitos de produção e imagens da primeira temporada de "Missão Impossível", porém a dublagem em português e espanhol pertencem ainda a empresa Saturno.


**DUBLADORES / MISSÃO IMPOSSÍVEL**

1ª, 2ª e 3ª Temporadas / AIC

1ª TEMPORADA:
*Steven Hill: Wilson Ribeiro.
*Barbara Bain : Helena Samara.
*Martin Landau: Rolando Boldrin e Aldo César (no final da temporada).
*Greg Morris: Ary de Toledo.
*Peter Lupus: Rebello Neto.
*Voz no gravador: Wolner Camargo.
*Narração da abertura: Antônio Celso e Ibrahim Barchini. 

2ª e 3ª TEMPORADAS
*Peter Graves: Carlos Alberto Vaccari.
*Martin Landau: Amaury Costa (1ª voz) e Carlos Campanile (2ª voz).
*Barbara Bain: Helena Samara.
*Greg Morris: Ary de Toledo.
*Peter Lupus: Rebello Neto.
*Voz no gravador: Wilson Ribeiro.
*Narração da abertura: Carlos Alberto Vaccari


4ª Temporada / TV CINESOM/RJ
*Peter Graves: Arakén Saldanha.
*Leonard Nimoy: Hélio Porto.
*Greg Morris: Ary de Toledo.
*Peter Lupus: ???
*Voz no gravador: Magno Marino.
*Narração da abertura: Ary de Toledo.

5ª. 6ª e 7ª temporadas / ÁLAMO / SP

*Peter Graves (Jim Phelps): Luiz Pini (1ª voz) e Antônio Moreno (2ª voz).
*Greg Morris (Barney Collier): Ézio Ramos.
*Peter Lupus (Willy): Antônio Moreno (1ª voz) e Antônio Cardoso (2ª voz).
 *Lesley Ann Warren:  ???
*Lynda Day George (Casey): Neusa Azevedo.
*Barbara Anderson (Mimi Davis - em 10 episódios da temporada 7): ???
*Voz no gravador: Jorge Pires.

**A DUBLAGEM DA AIC**


Mesmo tendo restado somente a dublagem da 1ª temporada, a qualidade é extraordinária.

Além dos dubladores fixos, há uma variedade de grandes talentos para dublarem os atores convidados: Gessy Fonseca, Dênis Carvalho, Flávio Galvão, Bruno Netto, Miguel Rosenberg, Judy Teixeira, Batista Linardi, Arakén Saldanha, Rita Cleós, José Soares e tantos outros num dos períodos mais férteis da dublagem da AIC.
A série foi dirigida por Wolner Camargo, em 1967, e demonstrou uma competência ímpar.


Infelizmente, devido ao descaso da distribuidora Brascontinental, perdemos as dublagens das temporadas com Peter Graves.
Assim como foi com outras produções, foi mais um golpe na dublagem realizada por grandes dubladores brasileiros.


*VAMOS REVER 2 EPISÓDIOS DA 1ª TEMPORADA*



*VÍDEO  1/

 


*VÍDEO 2 /



**Colaboração: Edson Rodrigues.
**Arquivo Pessoal**


**Marco Antônio dos Santos*

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