28 de janeiro de 2018

AIC: ORIGENS, APOGEU E ENCERRAMENTO


ESCLARECIMENTO: Desde o início deste blog, em setembro de 2008, sempre recebi diversas perguntas sobre como um estúdio de uma qualidade extraordinária como a AIC, chegou ao seu triste encerramento.
Na realidade, desde 1988, sempre esta questão também me incomodou em descobrir o que teria ocorrido.
Entretanto, não há documentos que sobreviveram, apenas informações dos diversos dubladores, com os quais conversei, nesses quase 30 anos de pesquisa sobre a Arte Industrial Cinematográfica.

Evidentemente, o que consegui não esgota o tema, uma vez que muitos dubladores tiveram o direito respeitado de nunca quererem tocar no assunto.
Sendo assim, verifiquei que é necessário entender a história da AIC desde as suas origens, ainda como Gravasom, em 1958, para verificarmos os fatos que decorreram a partir daí até a sua falência em 1976.

Saliento que apenas formulei um esboço didático das declarações de: Aldo César, Amaury Costa, Borges de Barros, Emerson Camargo, Gessy Fonseca, Glauco Laurelli, Maria Inês, Ronaldo Baptista, Sílvio Navas e Zezinho Cútolo.

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** AS ORIGENS **


Durante a década de 1950, São Paulo se transformou no maior pólo cultural e intelectual do país, por atrair pessoas de todos os tipos e países do mundo. Entre os jovens a proposta de fazer Cinema, como nos Estados Unidos, era um sonho que alguns quiseram tornar realidade, entre eles, Mário Boeris Audrá Júnior, nascido em 1921, hoje uma lenda entre os apreciadores do cinema nacional feito com arte e profissionalismo. Sua ideia era produzir filmes a baixo custo, aliando qualidade com economia. Para que tudo ocorresse dessa maneira procurou alugar os equipamentos e não comprar, buscando também o máximo possível de tomadas externas e abrindo os estúdios a co-produções, coisa que outras companhias como, por exemplo, a Vera Cruz, de São Bernardo do Campo, se recusava a fazer, subsistindo com o capital investido pelos seus fundadores, entre os quais Ciccillo Matarazzo. Assim a lucratividade única e exclusiva era com a venda dos filmes e o sucesso nas bilheterias. “Por esses e outros motivos a Vera Cruz fechou cedo”, avaliava Audrá.
**MÁRIO AUDRÁ  (1921 - 2004)**
Aberta a parcerias, a Companhia Cinematográfica Maristela nasceu com nome inspirado em uma sobrinha ainda menina, que Mário Audrá queria bem. A primeira dificuldade encontrada por “Marinho”, como também era conhecido nas rodas de cinéfilos, foi encontrar um lugar para instalar seus estúdios. Por causa disso e meio por acaso, o Jaçanã entrou para a história do cinema. Afastado do centro, o bairro oferecia grandes lotes a um custo baixíssimo. Melhor ainda foi o fato de uma antiga fábrica estar fechando suas portas, possibilitando ao novo empresário do cinema comprar, em vez de apenas um terreno, uma construção já pronta que possibilitava a instalação dos estúdios de maneira quase imediata. Uma das parceiras da companhia foi a TV Record que emprestava seus atores como Durval de Souza, Chocolate, Maria Thereza e Adoniran Barbosa a vários filmes que deste modo promoviam a emissora da família de Paulo Machado de Carvalho.
Como a ideia era gastar pouco, as externas eram feitas nas ruas do Jaçanã tendo como fundo edificações conhecidas da região, como a fachada do hospital São Luiz Gonzaga, ou ainda a antiga estação do velho trenzinho da Cantareira. Mário Audrá afirmava que a música “Trem das Onze”, maior sucesso do compositor Adoniran Barbosa foi composta certamente pelas idas e vindas dele ao bairro, uma vez que também ator, mas boêmio por excelência, Adoniran dispensava o carro que conduzia os atores do centro até o Jaçanã para muitas vezes seguir de trem até os estúdios. “Nestas idas e vindas no trenzinho, que por sinal era muito charmoso, deve ter sido a inspiração para compor o famoso samba”, contou certa vez Audrá.
**Estúdio da Cinematográfica Maristela**
A chegada da Companhia Cinematográfica Maristela ao Jaçanã, possibilitou também que moradores do bairro se tornassem funcionários da empresa, como no caso do fotógrafo José do Amaral, já falecido, cuja família mantém o acervo de fotos tiradas por ele durante várias filmagens. “As costureiras, porteiros, cozinheiros e até continuistas eram pessoas da vinhança”, lembrou o antigo empresário em depoimento, salientando que mesmo assim precisou buscar no exterior, a mão-de-obra especializada. “Da Argentina trouxemos maquiadores, editores e câmeras, porque na época os portenhos também faziam um bom cinema. Mais tarde húngaros, mexicanos e italianos trabalhariam conosco nos estúdios do Jaçanã."
Nunca foi fácil fazer Cinema no Brasil, mesmo assim em quase oito anos, a Maristela produziu quinze filmes de longa metragem, alguns de grande sucesso como “O Comprador de Fazendas”, recorde de bilheteria, “onde a procura do público de tão grande causou tumulto na porta de alguns cinemas”, informou Audrá em entrevista que foi concedida à Rádio Eldorado, em 2000, onde salientou à época que o grande atrativo de seus filmes era o elenco constituído de nomes conhecidos, como os de Procópio Ferreira, Tônia Carreiro, Ruth de Souza e além destes um principiante que depois ganharia fama, Carlos Zara. Procópio que era pai de Bibi Ferreira e foi o protagonista de “Quem matou Anabela?”, interpretando um detetive nesta produção, cuja estrela foi Ana Esmeralda, atriz de renome no Cinema Nacional e casada com Audrá até o fim de sua vida.
Mesmo com sucesso no resultado das produções, não foi possível se impedir que a Cinematográfica Maristela fechasse suas portas oito anos depois da inauguração, “pelo fato de esbarrarmos sempre em barreiras impostas pelo próprio governo brasileiro que além de não liberar nenhum tipo de verba, ainda obrigava o tabelamento dos ingressos”, lamentou o produtor cineasta, explicando que para se assistir a um filme premiado norte-americano com o Oscar, o público pagava pelo ingresso, o mesmo valor pago para assistir a um filme brasileiro. "Não poderíamos dar desconto, nem se quiséssemos”, acrescentando que  “desta forma o governo federal obrigava os produtores brasileiros a concorrer diretamente com o Cinema norte-americano tornando o processo inviável. O lugar foi demolido e parte do terreno hoje dá fundos para algumas casas que surgiram depois do fechamento da companhia, hoje restam somente as lembranças dos mais antigos moradores”. 

**O SURGIMENTO DO ESTÚDIO DE DUBLAGEM GRAVASOM**


A nossa televisão, já no final da década de 1950, vivia um conflito: não havia condições para produzirem tantos programas ao vivo, uma vez que o horário das emissoras começava a se ampliar. Em 1950, se iniciava por volta das 17h30, mas com o surgimento da concorrência já algumas iniciavam por volta de meio-dia ou 13h.
Não houve alternativa e a solução encontrada foi preencher com filmes e séries americanas, assim os programas ao vivo teriam mais tempo para a sua produção.

Já com o encerramento efetivo da Cinematográfica Maristela em 1957, Mário Audrá com seu empreendedorismo, percebe que a dublagem já estava batendo às portas, visto que havia muitas reclamações das legendas brancas em televisores preto e branco.

Assim, antes mesmo da lei da obrigatoriedade da dublagem na TV, de 1961, assinada pelo então Presidente Jânio Quadros, Mário Audrá e alguns membros de sua equipe visitaram os Estados Unidos e observaram como era desenvolvida a dublagem de desenhos e filmes europeus.

No retorno, funda o estúdio Gravasom, ainda em fins de 1957.
Entretanto, efetivamente, houve uma grande burocracia para se fundar algo que não existia no Brasil.
Além disso, foram aproveitados muitos equipamentos da Maristela Filmes, como microfones, moviolas de edição, porém estes já estavam bem desgastados.


Assim, encontra uma casa ideal para instalar o estúdio na rua Tibério 286, bairro da Lapa em São Paulo, a qual foi adaptada para a função.

Glauco Laurelli, um de seus braços direitos na Cinematográfica Maristela, nos relatou como foi o início:



* - Você teve uma vida dedicada ao Cinema, como você chegou a ser o primeiro diretor de dublagem de São Paulo ?

R: Há uma música que diz "Entrei de gaiato no navio" e foi mais ou menos assim. Por volta de 54/55, eu estava empregado na Maristela Filmes, que era de propriedade do Mário Audrá. Lá, eu fazia de tudo um pouco, mas também fui aprendendo muito sobre Cinema.
Entretanto, a Maristela Filmes era considerada até a "prima pobre" da Vera Cruz e as finanças não iam bem, apesar de terem produzidos alguns filmes significativos. Em 57, ficou decidido o encerramento das atividades do estúdio e, ao mesmo tempo, como a nossa televisão começava a ganhar mais espaço, o Audrá teve a ideia de se fazer dublagem no Brasil. Ainda havia umas pendências burocráticas, mas em setembro desse mesmo ano, já estava praticamente montado o estúdio lá no bairro da Lapa.
Mas o que era dublagem ? Ninguém sabia o que era realmente, eu tinha uma ideia vaga. Aí, um dia eu perguntei ao Audrá: Quem iria ensinar dublagem para tv e quem seriam os dubladores ?
Ele me respondeu: "Você será o Diretor Geral do estúdio Gravasom, portanto comece a pesquisar nomes para dubladores".



 * - Você relutou muito em aceitar esta grande tarefa ?

R: Eu levei um baita susto, eu queria seguir minha carreira no Cinema, mas era completamente desconhecido e também eu sabia que a dublagem também estava ligada ao Cinema, de alguma forma. A minha sorte é que havia um amigo americano, que trabalhava na parte de som da Maristela, que já conhecia a dublagem que os americanos faziam de desenhos e alguns filmes europeus e foi me dando uns toques. Também eu tive muita sorte, porque o estúdio ficou pronto em setembro de 57, mas as documentações estavam emperradas e a dublagem mesmo, para valer, só começou lá por março ou abril de 58, então aí eu tive mais tempo para pesquisar. Creio que fui o primeiro contratado do estúdio.

*- Em 1958, ainda não existia a lei da obrigatoriedade da dublagem na tv. Qual foi a primeira produção dublada e onde você encontrou os dubladores ?

R: Exatamente. Na realidade, o que ocorreu é que ninguém acreditava que isso fosse dar certo para a tv. Todos achavam que a dublagem deveria ficar restrita aos desenhos, como já havia para o Cinema. O Audrá ficou sabendo que uma emissora de São Paulo (não me lembro se a Tupi ou a Record), havia adquirido os direitos de exibição de um programa americano de muito sucesso, "Teatro Ford", mas adquiriram pouquíssimos episódios. Como o programa seria exibido num horário nobre, o estúdio se ofereceu para fazer a dublagem. A emissora pagaria somente os cachês dos dubladores. Praticamente fizemos um trabalho de "amostra grátis". Como eu sabia que a dublagem, além da sincronia, necessitava de uma interpretação com a voz, fui convidar os radioatores.


**Entrevista realizada pela internet em 21/05/2013**

**RONALDO BAPTISTA: UM DOS PIONEIROS DA DUBLAGEM PAULISTA**

"A Gravasom abria o caminho para as dublagens de séries e filmes
em nossa grande metrópole.  Desmentindo e ignorando informações contraditórias de pessoas que não acompanharam devidamente o início desta fase, a Gravasom foi a pioneira, e a equipe de dubladores que ela desenvolveu e aprimorou, foi um grupo selecionado pelo grande profissional de Cinema GLAUCO LAURELLI. 

Foram os autênticos pioneiros da nova profissão que acabava de nascer no Brasil. Os grandes radioatores e teleatores  da nova e ainda um tanto insípida Televisão, correram para a AIC, e abraçaram aquela esperança profissional de engordarem os seus parcos  rendimentos.  Mas não era nada fácil como a princípio poderia parecer. Muitos de nós já conhecíamos mais ou menos a coisa, porque os poucos filmes nacionais, na falta de som direto, eram então dublados pelos próprios atores, mas de uma forma muito amadora. A AIC profissionalizou e inovou com todo o equipamento especializado da época. Nada como hoje, é claro. Mas tudo passou a funcionar com vários estúdios, em ritmo rápido e seguro. A maioria dos dubladores pertencia ao Rádio e TV... mas era uma mescla democrática de todos os prefixos. Formamos uma verdadeira SELEÇÃO, com os maiores cartazes do nosso meio artístico. Seria injusto declinar aqui alguns dos grandes nomes, esquecendo aqueles mais modestos, mas de enorme valor. E também não caberia aqui tanta gente. Quanto a mim, tudo começou assim: Certo dia recebi em casa um telefonema do próprio GLAUCO LAURELLI. Eu estava residindo então na Rua Paula Souza, a mesma da Rádio Bandeirantes, a apenas 3 quadras da mesma. Esquina com a Rua Cantareira – a do Mercadão. Era modestamente conhecido pela atuação, às vezes como galã, das novelas da Radio Bandeirantes...    e GLAUCO sabia de tudo. Ele se informava para formar um time. O seu time. Não fez nenhum rodeio. Apresentou-se e foi logo ao assunto. Convidou-me então para participar da dublagem da série que seria lançada na Televisão brevemente: AS AVENTURAS DE RIN-TIN-TIN. Eu dublaria o personagem principal... que obviamente não seria o pastor-alemão. Bem porque eu não saberia latir... como muitos colegas brincavam comigo. Aceitei prontamente, embora morreeeeendo de medo. Eu já havia dublado alguns filmes nacionais, mas nunca um seriado estrangeiro. Ataquei de TENENTE RIP MASTERS, e ousei indicar o meu grande e fiel escudeiro, também da Bandeirantes, ZEZINHO CÚTOLO, para  a voz infantil do CABO RUSTY... que prontamente aceitou. Então... pau na máquina! Adaptei-me rapidamente aquele novo trabalho. Era mais fácil que dublar em português, embora pareça estranho. E o ZEZINHO também “engoliu” o papel. A GRAVASOM ficava com seus estúdios numa casa da rua Tibério, no bairro da Lapa, onde até hoje se encontra, tendo sofrido uma reforma radical."

(Trecho do livro "Na Pele do Lobo" de Ronaldo Baptista)

**OS PROBLEMAS DA GRAVASOM**

Fundada, efetivamente, em 19 de abril de 1958, apesar do grande sucesso junto ao público, com séries e filmes dublados, a Gravasom padecia da herança deixada pela Cinematográfica Maristela: os equipamentos já estavam ruins e viviam em eterna manutenção. Dos quatros estúdios, sempre havia um ou dois parados.
Além disso, as dublagens demandavam muito tempo, uma vez que a ideia de anel não existia bem definida e, muitas vezes, eram dubladas cenas com cerca de quase 5 minutos, o que incidia em que o dubladores errassem mais vezes.

Em 1961, Older Cazarré e Waldir de Oliveira já eram dois grandes dubladores e diretores de dublagem, principalmente em desenhos e a TV Tupi adquiriu a 1ª temporada de Os Flintstones, um grande sucesso americano naquela época.

Entretanto, um representante da distribuidora Screen Gems no Brasil, não aprovou a qualidade dos equipamentos para a dublagem do desenho.




Segundo Ronaldo Baptista, dessa forma, através da Columbia Pictures foi feita uma proposta ao estúdio: todo o equipamento seria novo e poderia ser pago em 10 anos, mas as dublagens da Columbia Pictures teriam sempre prioridade sobre outros estúdios, vetando, por exemplo, a Warner e grandes famosos títulos do Cinema da MGM, garantindo assim um áudio de qualidade, algo que também as dublagens cariocas padeciam devido à falta de recursos financeiros.

**EMERSON CAMARGO CITA A CRIAÇÃO DA AIC**

"Morávamos no Rio de Janeiro. Meu pai, Wolner Camargo, era muito amigo do Ronaldo Baptista. Ainda em fins dos anos 50, nos transferimos para São Paulo, onde meu pai foi contratado pela Rádio São Paulo. Ele sabia tudo sobre Rádio, já havia sido locutor esportivo, radioator, diretor de radionovela e obteve uma posição de destaque dentro da Rádio São Paulo.

O Ronaldo Baptista era amigo da família e o indicou para a Rádio São Paulo, porque queriam se firmar como uma grande produtora de radionovelas, o que de fato acabou ocorrendo. Em 62, o Glauco Laurelli queria retornar à produção de filmes e, novamente, o Ronaldo indicou meu pai para o Audrá, a fim de que ele fosse o Diretor Artístico do estúdio, cargo que existia nos primórdios da dublagem.


No mesmo ano de 1962, a Columbia Pictures fez um contrato e uma parceria com a empresa. Meu pai, ao assumir a direção propôs a alteração do nome do estúdio para Arte Industrial Cinematográfica São Paulo, na realidade, ele queria fazer uma dublagem em ritmo industrial, porém com muita arte. O pessoal ficou meio confuso, porque como fazer arte em ritmo industrial?
Meu pai tinha uma visão gigantesca e via que as dublagens estavam aumentando muito, sendo assim ele foi o criador do anel praticamente, ou seja, pequenos trechos de no máximo dois minutos, a fim da dublagem ser mais rápida. Isto ainda é utilizado até hoje e, no Rio de Janeiro, possui o nome de loop.

Quanto aos dubladores, fez uma seleção rigorosa e convidou muitos radioatores, evidentemente a maioria da Rádio São Paulo. Assim, nasceu propriamente falando a AIC. O período em que foi Gravasom foi uma gestação do que viria depois.
Com 4 estúdios funcionando das 8h da manhã até quase meia-noite, o sonho de se fazer dublagem com arte em ritmo industrial se concretizou." 

**Depoimento realizado em 23/08/1993**



**AIC: 1ª FASE ÁUREA (1962-1966)**

Durante os primeiros anos, apesar ainda de uma influência do radioteatro, foi abrindo e se firmando no mercado da dublagem devido aos seguintes fatores:


1 - Possuía um elenco de vozes extremamente de qualidade, experiente na interpretação com a voz.


2 - O áudio das dublagens era excelente, sem chiados, ou abafamentos e a mixagem era das melhores. Isto foi o resultado dos equipamentos trazidos pela Columbia Pictures e pelos técnicos de som contratados, os quais assim como os dubladores também eram excelentes.


3 - A seleção de tradutores também primava pela competência, pois foram orientados a traduzir já imaginando como poderia ser a melhor sincronia para o dublador. Esta orientação foi iniciada por Emerson Camargo (que era um excelente tradutor) e muito aprimorada por Hélio Porto quando ingressa no estúdio em 1964.


4 - O fato da cidade de São Paulo, nos anos 60, possuir uma forte concorrência entre as três mais importantes emissoras (TV Tupi, TV Record e TV Excelsior), aumentava consideravelmente o número de produtos a serem dublados, além de alguns atores também terem se engajado na dublagem da AIC com uma enorme qualidade.


5 - Durante essa primeira fase áurea, Amaury Costa e Borges de Barros estimaram que a AIC dublava cerca de 50% das produções, sendo o restante dividido entre os estúdios cariocas e os outros dois com sede em São Paulo: a Ibrasom e a Odil Fono Brasil.


**1966: uma decisão equivocada**

Apesar desse grande domínio na dublagem, Mário Audrá via como uma sombra, o crescimento do estúdio Ibrasom. A Odil Fono Brasil não incomodava, uma vez que dublava poucos produtos estrangeiros e se dedicava mais às dublagens dos filmes nacionais, os quais necessariamente precisavam ser finalizados num estúdio de dublagem, devido aos problemas com o áudio direto.


Fundada em 1959, na cobertura de um alto edifício na esquina da praça Marechal Deodoro com a rua dos Pirineus, a Ibrasom foi primeiro estúdio concorrente em São Paulo.

 Categorizada empresa especializada em dublagens, fundada por um grupo americano, e nomeando como Diretor Artístico ADRIEN FILHO, ex-integrante do elenco de radioteatro da Rádio São Paulo. 

Os responsáveis pela Ibrasom, sendo americanos, possuíam grande influência nesse ramo de atividade. Foi inegavelmente uma grande fase no terreno das dublagens, quando São Paulo dominava inteiramente o mercado.

Basicamente, durante os primeiros anos da década de 1960, a AIC e a Ibrasom eram concorrentes muito fortes, principalmente devido a qualidade dos dubladores, uma vez que praticamente o elenco de vozes era quase o mesmo.
Até hoje, os dubladores podem atuar em qualquer estúdio. Sendo assim, os dubladores participavam de ambos estúdios.

A Ibrasom também foi a grande oportunidade para aqueles que queriam iniciar na dublagem. Um grande exemplo é o de Carlos Campanile que, futuramente, migraria para a AIC, além de ter como um dos diretores de dublagem, o saudoso José Soares, que conhecia praticamente tudo sobre a arte de dublar. Ele foi também o grande responsável pelo descobrimento de muitos talentos.

Desde que a AIC surgiu, em 1962, a Ibrasom acabou sendo sempre uma espécie de "pedra no sapato da AIC", pois o mercado de dublagens se dividia quase que entre os dois estúdios.
Um estúdio, cujos proprietários eram americanos, enfrentava a AIC com qualidade também em suas dublagens e, aparentemente, seria muito difícil de ser vencido.

Os equipamentos da Ibrasom eram quase tão bons como os da AIC, apesar de ainda terem pequenas dificuldades.



Porém, aquilo que parecia que seria uma grande e longa disputa entre os dois estúdios teve o período de 4 anos. Em 1966, Mário Audrá  consegue adquirir a Ibrasom do grupo americano.

O estúdio é rebatizado com o nome de Ibis e ficou sendo utilizado pela AIC para certas finalizações, mixagens e pequenas dublagens (principalmente para os filmes nacionais). O estúdio Ibis passa a ser uma simples extensão da AIC, o qual teria também uma vida bem curta, uma vez que o declínio econômico da própria AIC fez com que encerrasse logo as portas do estúdio Ibis.

Esta decisão descapitalizou enormemente a AIC e quase todos os dubladores, que deram seus depoimentos, afirmaram que foi a partir daí que os salários começaram a atrasar. Uma pequena crise econômica começa a se formar, mas ainda a AIC administrava com pequenos atrasos no pagamento, uma vez que havia a dívida ainda com a Columbia Pictures devido aos equipamentos.


**1967: A PRIMEIRA CRISE DA AIC**

O ano de 1967 é muito curioso em se tratando da história da AIC. Poderíamos dizer que foi um ano com contradições e superações.


A pequena crise econômica, gerada em meados de 1966, continuava a ser administrada, mas suas raízes estavam aumentando gradativamente.

Ao mesmo tempo, a dublagem realizada pela AIC era mais requisitada, uma vez que que as nossas emissoras de TV preenchiam a programação com 50% de filmes e séries de tv americanas e até inglesas.
 A AIC também já havia abandonado a influência do radioteatro e novos talentos foram convidados a ingressar, assim como outros fizeram testes para participarem do estúdio.
É o ano que participam, inclusive, dubladores cariocas que estavam em São Paulo como Carlos Leão e Miguel Rosenberg, o que engrandecia mais a dublagem.

Entretanto, as dificuldades financeiras não se desenvolviam da mesma forma. Atrasos em pagamentos aumentavam e a AIC, segundo Zezinho Cútolo, fez até  empréstimos com bancos para tentar equacionar um pouco a situação, mas o que consequentemente gerou mais dívidas.

Wolner Camargo e Hélio Porto eram os principais diretores, com os quais Mário Audrá tinha muito contato e já em fins de 1967 decidiram se retirar do estúdio, visto que não concordavam com os rumos que o estúdio havia tomado se desentendendo totalmente com Audrá.

**EMERSON CAMARGO RELATA O EPISÓDIO**

"Meu pai não havia concordado com a compra do estúdio Ibrasom. Ele acreditava que a AIC poderia competir plenamente, aprimorando cada vez mais as dublagens, que já era um estúdio de grande conceito e que a Ibrasom ainda não havia chegado nesse mesmo patamar, mas meu pai era Diretor Artístico e de dublagem e não tinha o poder de decisão.

Ele chegou a propor que se renegociasse com a Columbia Pictures o contrato, solicitando mais prazo e que a AIC pudesse realizar dublagens de qualquer estúdio, o que não se conseguiu.

Com os constantes problemas econômicos ele se desentendeu totalmente com o Mário Audrá e pediu demissão do cargo. Juntamente com ele, eu e minha irmã também o fizemos. Seu último trabalho foi a direção de dublagem da série O Túnel do Tempo, que nem me lembro se foi realizada totalmente por ele até o fim.

Assim como ele, outros nomes de grande valor pensavam igualmente e decidiram também sair, numa atitude não só de solidariedade, mas pelo fato de perceberem que o Mário Audrá estava sendo mal assessorado administrativamente.
A AIC perdeu de uma só vez a experiência de meu pai, a competência do Hélio Porto, que casado com a Gessy Fonseca o acompanhou, do Neville George, do Ary de Toledo e Amaury Costa meses depois, Arakén Saldanha e Magno Marino e outros que a memória já me falha.

Retornamos ao Rio de Janeiro. Meu pai foi trabalhar como um dos representantes da extinta distribuidora CBS Filmes do Brasil, além de dirigir dublagem na CineCastro. O Hélio Porto foi para o Rio de Janeiro dirigir a TV Cinesom, onde muitos dubladores acabaram indo também. Eu também retornei ao Rio de Janeiro, continuei traduzindo e conheci o Aluízio Leite Garcia que queria implantar a CineCastro de São Paulo. Fiquei encarregado dessa enorme tarefa que durou cerca de dois anos e meio por aí.
De volta a São Paulo, fui o primeiro Diretor Artístico da CineCastro, que  se localizava num edifício do bairro Santa Cecília. 

Curiosamente, meu pai retornou a dublar na AIC, no início dos anos 70, o personagem Cannon, mas foi uma situação muito especial e não um retorno ao estúdio propriamente dito."

**Depoimento realizado em 23/08/1993**

**1967 NO DEPOIMENTO DE SÍLVIO NAVAS**

 "Esse ano de 67 foi bem atípico, como bem você lembrou. Eu estava fazendo uma participação na novela Redenção da TV Excelsior, mas era um personagem que iria morrer, aliás foi ótimo ele ter morrido, porque era um sitiante que vivia bêbado e ainda batia na mulher. A novela foi tão comprida que se criavam histórias paralelas. Eu já não suportava mais transpirar tanto devido às luzes da iluminação e um dia o Aldo César me disse que havia começado há pouco tempo na dublagem.

Ele indicou que eu procurasse o Older Cazarré para fazer um teste e ver se eu tinha jeito com a coisa. Desculpe, mas quando lembro do Cazarré e também do Olney me emociono muito, porque foram duas pessoas lindas por dentro, além da enorme competência de ambos.

O Cazarré me propôs um teste e aí parece que uma luzinha acendeu dentro de mim. Estava longe das luzes fortes, só com uma pequena iluminação do texto e poderia interpretar sem que viessem a me enxugar a transpiração a toda hora.

Eu não me lembro mais em que mês de 67 eu comecei a esperar algumas escalações. No início eram mínimas, eu entrava e dizia "Senhora, chegou uma correspondência" e ponto final, mas eu aprendia muito com craques da melhor qualidade, me dando dicas. O Wilson Ribeiro  sempre me acudia.
Logo passei a dublar personagens convidados em séries ou alguns bem secundários em filmes.

O que sentia dentro da AIC, em 67, é que havia algo inusitado: conheci a família Camargo lá, mas era um entra e sai de gente muito grande, uma enorme movimentação. 
Essa movimentação durou uns 6 meses, do final de 67 ao início de 68 e muita gente saía e chegavam outros.

Quando o Wolner Camargo saiu juntamente com outros, ficou como se fosse o suspense de um filme: o que acontecerá agora com o estúdio?
O Mário Audrá agiu rapidamente e colocou o Older Cazarré como Diretor Artístico. Nem preciso dizer que abaixou a temperatura do clima, porque praticamente todos adoravam o "Cazarré velho", como era chamado carinhosamente e o Olney de "Cazarré novo".

O Older tinha tanta experiência como o Wolner e também primava pela qualidade das dublagens realizadas e começou rapidamente a resolver certas questões, que estavam abertas com a saída de alguns dubladores. Foi ele que escolheu substitutos para personagens das séries que estavam sendo dubladas e me deu um susto um dia quando disse: "Sílvio indiquei para você um personagem fixo para substituir o Emerson Camargo, não é de grande expressão mas já disse que você aceitou para o diretor da série". Foi assim que ganhei o personagem Patterson de Viagem ao Fundo do Mar.

A AIC conseguiu manter a mesma qualidade na dublagem com as tomadas rápidas de decisão do Older. Havia uma turma antiga e uma nova chegando que unidas mantiveram o mesmo nível inicial da AIC. Tínhamos Borges de Barros, Wilson Ribeiro, Helena Samara, Rita Cleós, José Soares, etc; com gente querendo dar o melhor de si para a dublagem, não me refiro só a mim, o Francisco José, o Arquimedes Pires, o João Ângelo, Dulcemar Vieira, o Baroli, enfim, a qualidade não sofreu nenhum abalo e a AIC era ainda a Casa de dublagem mais requisitada e respeitada.

Há realmente uma contradição, meu amigo Marco Antônio, enquanto a AIC se mantinha com grande qualidade, a situação econômica não se alterava o quadro de forma significativa."

**Depoimento realizado em 24/07/2005**


**AIC: 2ª FASE ÁUREA (1968 -1971)**

A turbulência ocorrida nesse período que o saudoso Sílvio Navas citou, não afetou artisticamente à dublagem realizada. Assim, a AIC continuou predominando no mercado na dublagem.

Agora, sem a concorrência da Ibrasom, a Odil Fono Brasil se lança um pouco mais no tocante às produções estrangeiras, mas não afetava a concorrência, já que era de propriedade da família do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, a qual não possuía um objetivo de crescimento, mas sim de apenas realizar o seu trabalho.

Os dubladores ficaram com um estúdio a menos, mas praticamente todos que dublavam na AIC também o faziam na Odil, que era uma forma de ampliar a renda, visto que a situação econômica da AIC continuava delicada e os salários para serem pagos se arrastavam por diversas vezes. Outros começaram a recorrer para a participação em filmes e, principalmente, as telenovelas, uma vez que o gênero já havia conquistado o público no final da década de 60.

Assim, mesmo com as dificuldades financeiras, a AIC conseguia manter um elenco de vozes com uma qualidade extraordinária, ou seja, o padrão idealizado, em 1962, continuava inabalável.

O número de filmes e séries de TV dublados pelo estúdio nesta fase ainda se tornou maior, com o crescimento da popularidade da nossa televisão, alcançando a cada dia um número maior de brasileiros. 
Famosos filmes do cinema americano foram dublados nesta fase, tais como Cleópatra, O Manto Sagrado, O Último pôr-do-sol, Spartacus, Os Pássaros e muitos outros.

Entretanto, no ano de 1972, a situação da AIC já era outra.


**DEPOIMENTO DE MARIA INÊS SOBRE 1971/72**

**Maria Inês, você ingressou na AIC, substituindo a Magali Sanches em todos os seus personagens em 1967. Esse ano, a AIC sofreu uma grande crise e você se retirou em 1972 já com a 2ª crise. Como os fatos decorreram nesses 5 anos?

"É, eu vivenciei as duas situações, porém foram bem distintas. Eu entrei na AIC para substituir a Magali Sanches em todos os garotos que ela dublava. Foi bem no início do ano e ela não se retirou da AIC pela crise que estava iniciando, mas sim porque não queria mais trabalhar na área artística. Portanto, eu tinha acabado de entrar quando iniciou essa crise mencionada por você.

Na realidade, eu vejo que a 2ª crise foi bem pior. Ela ocorreu em 1972, mas as suas origens já vinham desde 67 e desaguaram em 71, por total falta de percepção da área administrativa.

Todo o problema financeiro foi se agravando, gradativamente, e não perceberam fatos importantes. Eu sempre gostei muito do seu Mário Audrá, uma pessoa boníssima, muita paciência, mas eu sempre enxerguei a AIC como dois estúdios em conflito. Vou tentar te explicar melhor: havia a área artística que primava por excelentes profissionais (tradutores, técnicos, dubladores e diretores de dublagem), todos de extrema qualidade. A outra AIC era a administrativa, a qual parecia que vivia num mundo à parte. Na minha opinião eram pessoas erradas nos lugares errados e o seu Audrá trocava alguns, mas nada mudava muito.

O problema é que em 67 a realidade da dublagem para tv era outra, mas em 71 já havia outros fatos que desencadearam essa chamada 2ª crise.

Em 71, devido ao aprofundamento da crise econômica, muitos dubladores acabaram procurando outros caminhos definitivamente. Vou citar alguns que me lembro bem: nesse ano houve a saída do Flávio Galvão (que já atuava como diretor de dublagem) e também do Xandó Batista com contratos na Tupi para fazer novela. Outros foram também e se dividiam com o Teatro.

Já estava funcionando a CineCastro de São Paulo e o Emerson Camargo se valeu da qualidade dos dubladores que ele conhecia tão bem. A CineCastro montou uma filial em São Paulo com afinco e quando se percebeu, quase ninguém aceitava ser escalado na AIC, porque demoraria muito tempo para receber (se recebesse).

Também nesse mesmo ano, começou a correr uma notícia que a AIC tinha uma dívida enorme com o antigo INPS. Essa notícia corria, mas naquela época era difícil de saber as coisas mais às claras como hoje. Eu vou responder por mim. Quando saí, em 72, durante os cincos anos que fiquei, descobri pouquíssimos depósitos feitos em meu nome.
Tudo isso junto fez com que o grande Older Cazarré também saísse. Ele possuía uma veia cômica excelente e foi participar de alguns programas de TV e no Cinema Nacional que iniciava as tais pornochanchadas.

Com a saída do Cazarré e de tantos, o seu Mário Audrá, resolveu extinguir o cargo de Diretor Artístico e escolheu uns diretores de dublagem com gabarito e cada um resolveria a sua escalação, enfim, (parece que hoje é assim na dublagem, estou afastada há 20 anos, mas dizem que é).
Lembro que foi escolhido o José Soares, o Dráusio e o Olney Cazarré e outros, mas não me recordo.
Em 72, eu fui dar aula de impostação de voz para o Teatro amador, mas o saudoso amigo Olney me telefonava sempre pedindo que eu o acudisse na série A Feiticeira.

O que ocorria era uma enorme ausência de vozes diferentes. Aí eu dublava uma moça, no outro episódio uma velhinha, depois um garoto e muitos, assim como eu, iam por amizade ao Olney. Praticamente, era eu, a Gessy Fonseca, o Sílvio Navas (que alterava bem a voz para os personagens), era um quebra-cabeça imenso que ele tinha que fazer com aqueles que aceitavam ir.

O enorme elenco diversificado que a AIC tinha no passado havia se reduzido muito e aí as distribuidoras começaram a reclamar e a dublarem bem menos na AIC, já que surgiu também em 72 a Álamo."

**Depoimento realizado em 01/12/1993**




Pelo depoimento de Maria Inês, verificamos alguns fatos que concorreram para piorar a situação da AIC de 1972 a 1974:

1 - O surgimento do estúdio Álamo, em 72, que absorvia perfeitamente àqueles que só continuaram na dublagem e não migraram para a TV.

2 - Em 1970, a falência da TV Excelsior, uma das emissoras que sempre trazia produções novas para serem dubladas.

3 - A partir de 1971/72 a forte crise financeira da TV Record que a limitou completamente, preferindo buscar uma programação em filmes e séries de TV, mas de preferência que já possuíssem dublagem.

4 - A Tv Tupi foi se envolvendo numa grave crise econômica e, pouco a pouco, cada vez mais reduzia custos.

5 - As três emissoras fortes de São Paulo deixam de existir, praticamente, e a TV Bandeirantes sofria para se recuperar de um incêndio.

6 - O centro artístico deixa de ser a cidade de São Paulo e vai para o Rio de Janeiro com a ascensão da TV Globo a partir de 1970.

7 - Os pequenos estúdios cariocas fecham e a Herbert Richers consegue melhorar a qualidade técnica de seus equipamentos e absorve todos os excelentes dubladores oriundos da Rádio Nacional  e outros vindos da própria AIC.

8 - Para a TV Globo, que se firmava no início dos anos 70, havia a preferência de que as dublagens fossem realizadas no Rio de Janeiro, uma vez que a emissora também alugava estúdios da Herbert Richers para a produção de seus programas e novelas.

Mesmo tendo terminado o contrato com a Columbia Pictures após 10 anos, a Screen Gems do Brasil ainda socorria o estúdio enviando algumas produções para serem dubladas, assim como a extinta MCA TV.
Entretanto, as produções eram mais baseadas em telefimes, alguns desenhos e pouquíssimas séries de TV.

No biênio 72/74, a AIC vivia seus piores momentos. Dívidas imensas que foram se acumulando no decorrer dos anos, fuga de excelentes profissionais e poucas produções para dublagem.

**COOPERATIVA ? AMAURY COSTA ABORDA O TEMA**

"Depois que a TV Cinesom faliu, retornei para São Paulo e dublava praticamente já na filial da CineCastro. O Emerson Camargo com a experiência adquirida com o seu pai, durante os anos em que estiveram na AIC, fazia um excelente trabalho. Os dubladores eram já velhos conhecidos e foi uma grande oportunidade em São Paulo, que se ampliou depois com a Álamo.

  Eu e outros colegas víamos coma certa melancolia a situação em que se encontrava a AIC.
Reunimos um grupo e tentaríamos salvar a AIC e tudo aquilo que ela representava. Em 1975, o estúdio já estava quase paralisado e fizemos uma proposta ao Audrá, na qual o grupo assumiria o controle administrativo. Não poderia dizer que fizemos uma cooperativa, no sentido do seu significado, mas havia alguns pontos semelhantes.

Foi nesse ano que dublei o personagem Kolchack.
Infelizmente, apesar da dublagem da série ter sido da qualidade que a AIC sempre realizou, o mercado da dublagem já estava bem modificado, no final de 75, e não houve como resistir, devido a tantas dívidas que estavam acumuladas.
 Tentamos diversos contatos com distribuidoras, porém não havia mais credibilidade e algumas ainda enviavam algo para ser dublado, mas não era suficiente para recuperar o estúdio.

Em 76, as dívidas acumuladas e não pagas com diferentes instituições decidiram executá-las, o que gerou a declaração da falência.
Muitos sentiram o encerramento, como eu, porque minha carreira se iniciou lá e quem gostava do estúdio jamais queria esse destino.
Depois, posteriormente, retornei para o Rio de Janeiro e levei a minha experiência para a Herbert Richers."

**Depoimento realizado em 15/10/1992**

**SURGE       A **

Em maio de 1976 a AIC já não existia mais. Ainda no início desse ano, há o término da dublagem dos 20 episódios da série "A Família Robinson", que até hoje é considerada a última produção dublada pela AIC, que se tenha conhecimento.
O registro do CNPJ do estúdio BKS mostra a data de 28 de abril de 1976.


Segundo José Luiz Sasso, que foi técnico de mixagem e coordenador dos Técnicos de Estúdio (de 1968 a 1972), Bodham Kostiff era de origem ucraniana e sua formação era em engenharia eletrônica.  Assim, consegue adquirir a "massa falida". Sendo assim, a criação da sigla BKS, se originou de seu nome próprio, acrescentando a palavra Studios. 
Juntamente com Pierangela Bianco Piquet passam a ser sócios fundadores da BKS.

No início, a BKS necessitou reformar alguns equipamentos, adequar melhor os estúdios reformando, um pouco, a casa da rua Tibério 286.

Uma nova reforma, já completamente radical, foi realizada por volta do ano 2002, onde houve a introdução da mais alta tecnologia para dublagem e legendagem em São Paulo. É considerado o estúdio com a mais avançada tecnologia não só do Brasil, como da América Latina, possuindo escritórios nos Estados Unidos e até na India.
Atualmente, a BKS ainda continua com a direção de Pierangela Bianco Piquet e de sua filha Daniela Piquet.

Após a greve dos dubladores entre 77/78, a BKS ingressa no mercado da dublagem com afinco e durante a década de 1980 era uma forte concorrente para o estúdio Álamo.
A BKS escalava dubladores experientes da antiga AIC e  se dedicava, sobretudo, à dublagem de diversos filmes ou até redublagens também de extrema qualidade.
Foi uma década de excelentes dublagens entre quatro estúdios: BKS e Álamo em São Paulo e Telecine e Herbert Richers no Rio de Janeiro.


**A BKS É A CONTINUAÇÃO DA AIC?
 DEPOIMENTO DE GESSY FONSECA**

"A princípio acredito que o público pensava assim e nós dubladores também. Havia a mesma preocupação com o padrão da qualidade da dublagem. A AIC criou esse padrão e que a Álamo também percorria. 

Embora a AIC tivesse desaparecido deixou esse legado para a dublagem paulista. 

Entretanto, após alguns anos começaram a surgir outros estúdios e já na década de 90 a concorrência aumentou muito, muitos profissionais obtiveram novas propostas e , posteriormente, surgiu a dublagem individual o que (na minha opinião), fez uma queda da qualidade em todas as dublagens brasileiras."

**Depoimento realizado em 12/06/2011**

**A BKS É A CONTINUAÇÃO DA AIC? 
DEPOIMENTO DE SÍLVIO NAVAS**


"Tentou ser, mas seria engolida pela concorrência. É bom que fique bem claro o seguinte: nos anos em que a Gravasom tentava, pioneiramente fazer dublagem, outras Casas também começaram a fazê-lo, a Ibrasom em São Paulo, a CineCastro, Riosom e até a Herbert Richers faziam uma dublagem artesanal. Todos tentavam atingir qual seria o melhor caminho para a dublagem.

Esse caminho foi descoberto pelo Wolner Camargo quando assume a AIC.

Daí em diante, todos os estúdios, daquele período, tentavam e primavam por atingir o padrão de qualidade criado, embora a AIC tivesse a seu favor equipamentos novos para a dublagem, o que deixava um ganho no áudio muito grande.

Sendo assim, o período de existência da Gravasom foi profundamente realizado por pioneiros, depois a AIC dominou o mercado profundamente, mas é bom frisar que o proprietário era o mesmo Mário Audrá.
A partir do momento em que uma empresa faliu e outra pessoa a adquiriu, eu vejo que a BKS começou em 76 e não em 58 como muitos gostam de contar essa história.

Evidentemente, o novo estúdio pode ter utilizado como modelo o padrão de qualidade deixado pela AIC, mas a filosofia da empresa era outra, não vejo como se pode ligar essas pontas, a única ligação é a localização do estúdio."

**Depoimento realizado em 24/07/2005**



**CONSIDERAÇÕES  FINAIS**

Segundo o saudoso Aldo César nos relatou: "fica muito difícil de se estabelecer com precisão os fatores que levaram a AIC à falência: foram diversos e também a responsabilidade do ocorrido. 
Não podemos culpar uma só pessoa, houve outras. Acredito que o legado deixado seja de muito maior importância para a dublagem brasileira. Apesar de todos os problemas ocorridos, foi o primeiro estúdio de dublagem a reunir um grande elenco de vozes de excepcional qualidade e, praticamente, fixou os parâmetros da dublagem que se iniciava nos anos 60. Infelizmente, não conseguiu se fixar no mercado, assim como a TV Tupi que foi a pioneira."

**Depoimento realizado em 15/03/1993**



Realmente, desde que me dediquei à pesquisa da história da AIC, sempre ficou em primeiro plano a qualidade das dublagens realizadas, a importância de seus dubladores, técnicos e tradutores.

A AIC durou um curto período, apenas 14 anos, porém as dublagens realizadas em filmes, séries de TV e desenhos possuem fãs até hoje.
Ainda lamentamos quando descobrimos que determinadas dublagens foram perdidas, porque sabemos que houve uma obra artística descartada.

Quando ouvíamos Carlos Alberto Vaccari narrando a abertura de uma produção, já tínhamos a certeza absoluta da qualidade que desfrutaríamos.

"Versão Brasileira AIC São Paulo", esta frase sempre será sinônimo de dublagem brasileira com extrema qualidade artística.


**OBSERVAÇÕES**


1 - Todos os depoimentos foram gravados nas antigas fitas cassete para gravador.

2 - Alguns fatos foram omitidos por envolverem pessoas falecidas e não terem sido corroborados em outros depoimentos.

3 - O objetivo desta postagem não é "documental", uma vez que não havia mais como encontrá-los a partir de 1988, quando iniciei, ainda de forma empírica, a pesquisa sobre as dublagens realizadas pela AIC.

4 - Certamente, há muitos outros fatos ocorridos, os quais não foram disponibilizados pelos dubladores que se predispuseram a tocar no tema.

5 - Esta postagem possui simplesmente um esboço de fatos, que demonstram as origens da AIC, seu apogeu na dublagem e algumas causas prováveis  do seu encerramento.

**Vejamos um episódio completo da série "A Família Robinson", última dublagem realizada pela AIC**



**FONTE DE PESQUISA:

*Livros: "Cinematográfica Maristela - Memórias de um produtor" de Mário Audrá*
"Na Pele do Lobo" de Ronaldo Baptista*

*Depoimentos dos dubladores citados*
*Colaboração: José Luiz Sasso, Sílvio Matos e Thiago Moraes*
*Acervo Pessoal*


**Marco Antônio dos Santos**

1 comentários:

Jose Abílio Celestino Macedo disse...

Parabéns, Marco Antônio. Grande trabalho de pesquisa que nos trouxe fatos até então desconhecidos e esclareu muitas duvidas da história de AIC.

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